Receita original de Pão de queijo com queijo de São Jorge
Quisémos recriar a receita original do pão de queijo brasileiro. Como é díficil (e caro) encontrar queijo de Minas, decidimos misturar um pouco de queijo de S. Jorge com mozzarella, para obter o sabor e a textura elástica. Agora, são os brasileiros a pedir-nos a nova receita.

Ingredientes
- 180 ml Leite ou água
- 50 ml Óleo
- 10 g Sal
- 200 g Polvilho Azedo
- 130 g Polvilho Doce
- 1 unidade Ovo
- 150 g Queijo mozzarella
- 150 g Queijo de S. Jorge
Preparação
- Pré-aquecer o forno a 200º.
- Ferver o óleo com o leite ou água.
- Numa tigela de inox misturar os dois polvilhos.
- Aos poucos juntar o leite à mistura, misturando enquanto juntar o leite para evitar que gelatinize.
- Juntar o ovo batido e trabalhar a massa.
- Juntar o queijo ralado e o sal e misturar até ter uma massa homogénea que se solte naturalmente das paredes da tigela.
- Fazer bolinhas com a massa e colocar num tabuleiro de forno com papel vegetal.
- Levar ao forno durante cerca de 15 a 20 minutos.
Notas do Chef:
- Líquidos quentes (leite/água + óleo) escaldam o polvilho, hidraulizando o amido e permitindo formação de rede elástica característica do pão de queijo.
- A combinação de polvilho azedo e doce equilibra acidez e textura; o azedo contribui para expansão e leveza.
- Ovos atuam como emulsificante, integrando água e gordura e fornecendo estrutura proteica ao coloide da massa.
- O calor do forno vaporiza a água interna rapidamente, expandindo bolhas de ar e criando interior aerado e exterior ligeiramente crocante.
Pão de queijo de São Jorge e Mozzarella: Minas Gerais em modo Atlântico

Se há coisa que une open space lisboeta, uma fazenda mineira e a casa da avó brasileira é pão de queijo acabado de sair do forno. O original é mineiro, sim, mas vocês já sabem: na WEAT temos dificuldade em deixar tradições em paz – adoramos estudar a ciência por detrás de cada passo e ingrediente da receita, para simplificar o nosso trabalho e ainda tornar as receitas melhores.
Neste caso, pegámos no clássico pão de queijo brasileiro e puxámo-lo para o Atlântico: metade queijo São Jorge, metade mozzarella, a meio caminho entre a fazenda de Minas Gerais e uma queijaria açoriana. Resultado? Um pão de queijo com identidade luso‑brasileira, sabor mais intenso, textura elástica pornográfica e aquele aroma que faz o vosso escritório parecer uma padaria às 8 da manhã.
Da cozinha mineira ao forno do escritório
O pão de queijo nasce em Minas Gerais, provavelmente por volta de meados do século XVIII, num contexto de produção crescente de leite e queijo e escassez de farinha de trigo. Com o trigo caro e distante, a solução prática foi usar polvilho de mandioca (fécula extraída e seca), tubérculo nativo que já era processado pelos povos indígenas há muito.

Segundo historiadores da alimentação, o pão de queijo começou como biscoitos de polvilho a que se iam acrescentando sobras de queijo duro acumuladas nas fazendas, criando uma massa enriquecida que era assada ao fim de semana. No século XIX, com a consolidação da produção de queijo em Minas e a circulação de receitas, o pão de queijo foi-se tornando parte da identidade gastronómica regional, acabando por ganhar o Brasil (e, mais tarde, o mundo).
Hoje, aparece congelado em supermercados de Tóquio a Lisboa, mas o princípio continua o mesmo: polvilho (azedo e/ou doce), gordura, líquido quente, ovo e queijo ralado. A nossa versão com São Jorge e mozzarella respeita a estrutura do pão de queijo tradicional – que historicamente usa queijos tipo Minas curado – mas dá-lhe passaporte português, com um queijo açoriano intenso em sabor e um queijo italiano pensado para dar aquele puxa‑puxa obsceno na trinca.
Polvilho azedo + polvilho doce: a alquimia da textura perfeita
O que torna o pão de queijo tão especial não é só o queijo, é a química da fécula de mandioca.
- Polvilho doce é amido de mandioca seco sem fermentação, obtido da decantação e secagem da fécula; confere estrutura, massa mais densa e miolo “cheio”, com aquele interior elástico típico.
- Polvilho azedo é o mesmo amido, mas submetido a fermentação natural antes de secar, o que altera acidez, sabor e, sobretudo, comportamento tecnológico: ele expande e forma pães de queijo aerados e leves, mesmo sem fermento químico.
A combinação dos dois dá o melhor dos dois mundos: o polvilho azedo garante crescimento, alveolos e casca leve; o polvilho doce segura a estrutura e reforça o “puxa‑puxa” interno. Há até quem brinque que usar só polvilho doce deixa o pão de queijo denso e “pedra” no dia seguinte, enquanto o azedo dá aquele interior fofo que sobrevive melhor ao arrefecimento.
Quando escaldamos o polvilho com leite/água quente e óleo, estamos a gelatinizar parcialmente o amido, pré‑estruturando a rede que depois vai aprisionar vapor e gordura no forno. O ovo entra como emulsificante e fonte de proteína que coagula, o queijo reforça elasticidade e sabor. É ciência pura, mas o resultado é muito simples: bolinhas que explodem em aroma de queijo e goma.
Entre Minas e Açores: Mediterrâneo não é, mas também não é um crime
Vamos ser honestos: pão de queijo não é prato da dieta mediterrânica, é um mimo. Mas dá para enquadrar com alguma inteligência nutricional.
Pouco trigo (zero, aliás), fécula de mandioca, queijo e ovo. Se compararmos com muitos produtos de padaria ultraprocessados, cheios de gorduras hidrogenadas, açúcares e aditivos, um pão de queijo caseiro honesto tem uma lista de ingredientes curta e reconhecível – o que já é meio caminho andado para uma relação mais saudável com este tipo de prazer.
Do ponto de vista de sustentabilidade, a estrela problemática é o queijo: lacticínios são mais intensivos em emissões do que leguminosas ou cereais, mas muito menos do que carne bovina consumida em grandes quantidades. O truque aqui é usar o pão de queijo com São Jorge e mozzarella como:[8]
- Snack ocasional bem pensado, não como base da dieta.
- Acompanhamento de refeições mais vegetais (saladas, sopas, pratos de leguminosas).
- Veículo social: partilhar tabuleiros inteiros em vez de comer sozinho ao computador (a saúde não é só nutrientes, é contexto social).
Se quiserem alinhar com o espírito mediterrânico, é simples: equilibrem este pão de queijo com muita planta à volta, menos carne no prato seguinte e uma caminhada depois. Não é detox, é só bom senso.
Saúde & ciência: o que diz a evidência sobre queijo
Chegamos ao elefante na sala: gordura saturada. Queijo tem, e não é pouco. Mas a literatura recente tem sido bem mais interessante do que o discurso “gordura saturada = mal absoluto”.
Revisões e meta-análises sobre consumo de queijo sugerem que ingestão moderada está associada a risco reduzido ou neutro de doença coronária e AVC, apesar do teor de gordura saturada. Fala-se hoje do chamado “efeito matriz” do queijo: a combinação de cálcio, proteína, fermentação, gordura láctea e possível presença de probióticos parece modular o impacto da gordura saturada no metabolismo, atenuando efeitos negativos clássicos sobre colesterol.
- O cálcio do queijo pode ligar-se a ácidos gordos no intestino, formando “sabões” não absorvidos, reduzindo absorção de gordura.
- A proteína e a fermentação geram péptidos bioactivos e ácidos gordos de cadeia curta, potencialmente benéficos para metabolismo cardiovascular.
Isto não significa que devamos viver de pão de queijo com São Jorge ao pequeno‑almoço, almoço e jantar. Significa que num contexto de dieta globalmente equilibrada, com muita planta, fibra e pouca ultraprocessada, um par de pãezinhos de queijo caseiros cabem sem drama. Especialmente se forem feitos com receita controlada, sem exageros de óleo, como a nossa.

Fun facts para acompanhar o tabuleiro
Algumas curiosidades para largarem enquanto os pães de queijo com São Jorge ainda estão a arrefecer (mais ou menos):
- Pão de queijo foi eleito uma das melhores comidas do mundo na categoria pequeno‑almoço pelo site TasteAtlas, ficando no top 3 em 2023.
- A origem está ligada ao uso de sobras de queijo em fazendas mineiras: aparas secas eram guardadas e, ao fim de alguns dias, misturadas a massas de polvilho para criar biscoitos enriquecidos – o primeiro “zero waste cheesy snack” documentado.
- Oficialmente, o pão de queijo é o principal produto comercial feito com polvilho azedo no Brasil, aquilo para que esse polvilho “foi feito” em termos industriais.
- Alguns historiadores lembram que receitas similares de “pão de ar” existiam em cozinhas europeias com gougères e choux, mas a versão com mandioca é 100% Brasil – colonização foi mão dupla na cozinha.
Moral da história: cada vez que fazem pão de queijo com São Jorge e mozzarella, estão a participar numa longa cadeia histórica… com queijo derretido no meio.
Porque o pão de queijo é tão viciante: textura, gordura e memória emocional
Este pão de queijo com São Jorge e mozzarella é praticamente engenharia de dependência sensorial:
- Crocante fora, elástico dentro
O choque de casca fina ligeiramente firme com miolo húmido, quente, cheio de ar e queijo elástico dispara todos os sensores de conforto. O polvilho azedo é o responsável pela expansão – durante a cozedura, o vapor gerado pela água/leite e pela humidade do queijo expande, e a rede de amido gelatinizado segura esse ar. - Gordura + sal + umami
- Gordura do queijo e do óleo: veículo perfeito para aroma e saciedade.
- Sal: amplifica sabores, faz o queijo cantar.
- Umami do queijo São Jorge maturado e da mozzarella derretida: aquela sensação de “não é só salgado, é profundo”. O cérebro lê isto como alimento denso em energia e nutrientes.
- Aroma de forno
A reacção de Maillard na superfície, combinada com queijo a gratinar e óleo a aquecer, cria compostos aromáticos que associamos a “padaria”, “casa”, “infância”. A memória olfactiva é poderosa; meia fornada de pão de queijo consegue silenciar uma reunião de Zoom mais rápido que qualquer mute all. - Formato individual
Pequenas bolinhas significam “mais uma não faz diferença”. Spoiler: faz. Mas do ponto de vista psicológico, o formato mini legitima a repetição. É snack, não “prato principal”, o que desarma defesas cognitivas.

CHEF NOTES: truques para acertar sempre no pão de queijo com São Jorge
Algumas notas técnicas, em bullets, para a vossa versão caseira:
- Escaldar bem o polvilho: ferver leite/água com o óleo e verter quente sobre a mistura de polvilho, mexendo rápido, é crucial para gelatinizar o amido e garantir elasticidade.
- Deixar a massa arrefecer um pouco antes de juntar o ovo, para não cozinhar a gema no impacto.
- São Jorge + mozzarella: ralem fino e misturem bem; o São Jorge dá sabor, a mozzarella dá stretch. Não invertam a proporção se querem intensidade.
- A massa deve ficar macia, ligeiramente pegajosa mas moldável; se estiver seca, um fio de leite; se estiver muito mole, um pouco mais de polvilho doce.
- Bolinhas de tamanho semelhante para cozer de forma uniforme; se forem muito grandes, aumentem ligeiramente o tempo e baixem 10–20 ºC no final para não queimar a base.
- Não precisa untar o tabuleiro se usar papel vegetal; se não tiver, um filme finíssimo de óleo chega.
- Servir quente é quase obrigatório; se forem reaquecidos, uns minutos no forno quente (não micro‑ondas, se puderem evitar) devolvem dignidade.
Se acabarem com a massa um pouco mole demais, façam “colheres de pão de queijo” em vez de bolinhas e chamem-lhe rústico. A única coisa imperdoável é pão de queijo cru ao centro ou torrado demais.
Alergénios: onde está o potencial drama
Este pão de queijo com São Jorge e mozzarella traz:
- Leite e derivados: queijo e, se usarem leite em vez de água, mais lactose e proteína láctea. Alergias a proteína de leite e intolerância à lactose são pontos de atenção óbvios.
- Ovo: na massa; pessoas com alergia a ovo devem evitar.
- Mandioca (polvilho): raramente alergénica, mas pode ser problemática em casos muito específicos; de forma geral, é bem tolerada e naturalmente sem glúten.
A boa notícia: é naturalmente sem glúten, o que o torna um aliado poderoso em contextos onde há doença celíaca ou intolerância ao trigo – desde que sejam cuidadosos com contaminação cruzada.
Fontes
[1] Pão de queijo – Wikipédia, a enciclopédia livre https://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A3o_de_queijo
[2] Qual é a origem do pão de queijo? https://www.nationalgeographicbrasil.com/cultura/2024/08/qual-e-a-origem-do-pao-de-queijo
[3] Pão de queijo https://en.wikipedia.org/wiki/P%C3%A3o_de_queijo
[4] Biting Into Brazil – The Story Behind Pão de Queijo … https://worldofweinberg.com/2025/11/12/biting-into-brazil-the-story-behind-pao-de-queijo-cuisine-spotlight/
[5] Pão de queijo: qual a diferença de usar polvilho azedo … https://www.tudogostoso.com.br/noticias/pao-de-queijo-qual-a-diferenca-de-usar-polvilho-azedo-polvilho-doce-ou-uma-mistura-dos-dois-ingredientes-a14482.htm
[6] Polvilho doce ou polvilho azedo, com qual deles o pão de … https://www.cpt.com.br/dicas-cursos-cpt/polvilho-doce-ou-polvilho-azedo-com-qual-deles-o-pao-de-queijo-e-feito
[7] Nunca mais erre o PÃO DE QUEIJO – A ciência da receita https://www.youtube.com/watch?v=x1v7QMLbheQ
[8] Sustainability in the Mediterranean Diet: Key Insights https://bhooc.com/blogs/articles/sustainability-mediterranean-diet-insights
[9] Effect of Cheese Intake on Cardiovascular Diseases and … https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9318947/
[10] The matrix effect: The surprising science of how cheese … https://www.sciencefocus.com/the-human-body/how-cheese-impacts-heart-health
[11] Cheese: A Heart Healthy Snack? https://www.cardiometabolichealth.org/cheese-heart-healthy-snack/
